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quarta-feira, 27 de julho de 2011

Cultura da autoestima é contestada por psicóloga americana

Enquanto instituições, terapias, profissionais e livros seguem vendendo o "resgate da autoestima", a psicóloga americana Kristin Neff resolveu questionar um dos clichês mais repisados das últimas décadas.

Para ela, a cultura que incentiva em cada um a avaliação positiva de si mesmo contribuiu para a atual epidemia de narcisismo. Como alternativa, Neff, 44, defende o estímulo da autocompaixão, conceito budista que ela importa para a psicologia no livro "Self-Compassion", lançado em abril.

De sua casa, no Texas, a professora falou à Folha, pouco antes de embarcar para um retiro de meditação na Inglaterra.

A psicóloga americana Kristin Neff, professora da Universidade do Texas e autora do livro "Self-Compassion
A psicóloga americana Kristin Neff,
professora da Universidade do Texas
e autora do livro "Self-Compassion"
Folha - Como uma autoestima elevada pode fazer mal?
Kristin Neff - Não é o fato de ter uma autoestima elevada que é prejudicial, mas o que se faz para consegui-la ou mantê-la. Você precisa ser o número um, precisa se sentir especial e melhor do que os outros. Se, por exemplo, a sua performance no trabalho está abaixo da média, você se sente abaixo da média.

Dá para manter a autoestima sempre em alta?
Não, isso não é sustentável. Para manter a autoestima em alta precisamos nos sentir melhor do que somos e achar que os outros são piores do que são. Só que não dá para ser melhor do que os outros o tempo todo. Você se sente bem quando recebe aquela promoção no trabalho, mas também se sente péssimo se não recebe. É óbvio que essa instabilidade faz mal à saúde. Pode levar à depressão e à ansiedade. Não dá para confiar na autoestima porque ela logo abandona você.

Por que a busca pela boa autoavaliação é tão prejudicial?
Porque acirra a rivalidade e pode levar à agressividade. Há quem sustente que muitas crianças praticam bullying porque têm baixa autoestima. Na verdade, elas obtêm sua autoestima colocando os outros para baixo, provocando, batendo. Assim se sentem melhores do que os outros. Pessoas preconceituosas usam critérios como raça ou religião para se dizerem melhores em relação aos que integram os outros grupos. O preconceito vem desse sentimento de que o grupo ao qual pertenço é melhor do que o outro e de que tenho que me sentir melhor do que o outro.

Como a cultura incentiva essa busca de alta autoestima?
Desde cedo, com os pais, com a escola. Numa sociedade competitiva, você dirá às crianças que é preciso ser sempre o primeiro. Elas vão ficar se comparando o tempo todo, porque têm sido educadas na ideia de que devem sempre se sentir especiais e ganhar prêmios por serem as melhores. Todas essas formas de premiação que existem nas escolas incentivam a competição.

Qual o resultado disso?
Hoje, temos os maiores índices de narcisismo registrados graças a esse tipo de educação. É uma epidemia. Sou professora universitária há 12 anos e já vejo uma mudança nos meus alunos. Eles cada vez mais se sentem incomodados se tiram um B como nota. Meu filho ouve muito rap e eu noto essas letras lotadas de narcisismo.

As pessoas são apegadas à ideia da autoestima?
Sim. Atingimos o ápice da raiva quando alguém diz algo que, de alguma forma, mexe com o nosso ego, aquilo que, se aceitássemos, colocaria em risco nossa autoestima. Nos defendemos o tempo todo para protegê-la.

Mas não é certo tentar gostar de si mesmo?
Está certo gostar de si mesmo. O problema começa quando as pessoas se perguntam por que elas devem gostar de si mesmas. Há duas formas de se responder a essa pergunta: "Eu gosto de mim mesma porque sou um ser humano, tenho valor e sentimentos e mereço atenção", e outra forma é dizer "Eu gosto de mim mesma porque sou melhor do que as outras pessoas". Na cultura ocidental, tendemos a escolher a segunda resposta.

Mas não dá para viver sem autoestima, certo?
No mundo animal, há uma hierarquia social que serve para manter a coesão do grupo. Todos aspiram pelo posto do macho alfa. Queremos estar no topo e precisamos acreditar que temos as condições para isso. Portanto, o desejo por uma autoestima elevada é natural. Mas ela não é o único sistema natural. Os mamíferos têm a capacidade de transmitir e receber carinho. Nascemos imaturos e demoramos para nos desenvolver. O nosso corpo pede carinho e temos como resposta um aumento de ocitocina [hormônio ligado à sensação de bem-estar] e diminuição dos níveis de cortisol [hormônio liberado em situações de estresse]. Quando dirigimos esse conforto físico e psicológico a nós mesmos estamos praticando autocompaixão.

A autocompaixão é a alternativa que você propõe?
Sim. Se a autoestima implica você se julgar positivamente, a autocompaixão não envolve julgamento. Diz respeito a responder com carinho para si mesmo nos momentos de sofrimento. É como a compaixão: vejo que alguém está sofrendo e me esforço para ajudar a pessoa. Tanto a autocompaixão quanto a autoestima têm os mesmos benefícios, mas a primeira não tem os prejuízos da segunda. Se a autoestima te abandona, te ignora ou te critica quando algo ruim acontece, a autocompaixão te dá apoio quando você sofre, sente medo, é rejeitado ou falha.

Como dá para praticar essa autocompaixão?
Você tem que começar notando como trata a si mesmo. Muitas pessoas são tão autocríticas que nem notam. Fiz experimentos mandando as pessoas anotarem o que diziam a si mesmas em momentos em que enfrentavam problemas -uma calça que não servia, um trabalho que não dava certo... Elas tinham um choque quando viam o que haviam escrito. Percebiam o quanto estavam sendo duras. Muitos dizem que não conseguem ser compassivos consigo mesmos, mas eu digo que isso é possível: você tem feito isso a vida toda, com amigos, com parentes. Sabemos como fazer com os outros, precisamos fazer o mesmo conosco. Requer a chamada "mindfulness", a atenção plena ao próprio sofrimento.

O que a psicologia pode aprender com o budismo?
O budismo está transformando a psicologia, é como uma terceira via da psicologia. E a compaixão está no coração do budismo. Significa ter um coração aberto para si e para os outros. O cristianismo ensina a ter compaixão pelos outros, mas não ensina nada sobre autocompaixão. No budismo, isso não faz sentido. Não é lógico separar você dos outros, todos fazemos parte de um mesmo sistema.

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